sexta-feira, 9 de abril de 2021

Houston, temos um problema

Não querendo ser o único a errar a resposta da pergunta que o apresentador de um programa de comédia em pé que eu estava transcrevendo fez para seus companheiros de piadas, mandei para alguns dos poucos contatos que se encontram em meu celular o seguinte problema: “Um celular e sua capinha custam 610. O celular custa 600 reais a mais que a capinha. Quanto custa o celular?”.

Enquanto, se quiser, você faz a conta, lembro-me de que deve ter sido em um programa de competição entre universitários que passava na TV Cultura de São Paulo chamado “Quem Sabe, Sabe...” que o dono do primeiro emprego que tive com carteira assinada ouviu a seguinte história: Três amigos em uma lanchonete gastaram juntos Cr$ 25, dando Cr$ 10 cada um para pagar a conta.

Só um parêntese: para quem nasceu na segunda metade da década de 1980, cruzeiro (Cr$) era o nome da moeda brasileira até 1986.

Sabendo da impossibilidade de dividir em três partes iguais os Cr$ 5 de troco, o atendente convenceu os amigos a ficar com Cr$ 1 cada um e a dar Cr$ 2 para ele.

Mas, ao somarem os Cr$ 2 da generosa gorjeta ao produto de três vezes o valor que, de acordo com o Cr$ 1 de troco que havia sido devolvido, cada um concluíra que havia gastado (Cr$ 9), ou seja, 2 + (3 x 9) = 29, os três amigos gostariam de saber onde havia ido parar o Cr$ 1 que estava faltando.

Voltemos ao primeiro problema.

Dos contatos que me responderam até este texto começar a ser escrito, o único que acertou a resposta do problema foi um velho amigo de curtições roqueiras que, sem saber de minha paixão pela, segundo Carl Friedrich Gauss, rainha das ciências, me perguntou se estou trocando a língua portuguesa pela matemática.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O dia em que conhecemos J. R. Duran

Fã de J. R. Duran, cujo trabalho eu curtia nas revistas de moda, na “Irisfoto” e na “Playboy”, eu havia convidado meu amigo Gabriel Front para ir ao vernissage (assim mesmo) de “18 Photos”. 

Quando chegamos ao endereço onde o fotógrafo (nascido Josep Ruaix Duran, em Barcelona, em 1952) iria realizar a pré-estreia de seu álbum, muitos famosos e desconhecidos já esperavam sua vez de, sem cerimônia, falar com ele e lhe pedir um autógrafo, como fiz eu, que arranquei a página da qual mais gosto de “As Melhores Fotos/The Best Photos”, coletânea lançada em 1988, pela Sver & Boccato Editores, para ele assinar. 

A festa estava boa, mas, com outra na mesma data, 5 de abril de 1991, precisávamos colocar o pé na estrada, ou, melhor, no ônibus, o que fizemos assim que tomamos uma cerveja em um estabelecimento perto da casa do lançamento do livro. 

Nunca me saiu da cabeça que foi por causa da bebida que, no ônibus, acabei cochilando mais do que deveria, pois, mal desembarcamos no terminal da Vila Mariana, notei que havia perdido a carteira. 

Sem dinheiro e sem documento, não me restou outra saída a não ser esquecer a festa eletrônica (leia-se electronic body music) perto da Editora Abril, tentar convencer o cobrador do coletivo que ia pela Paulista a nos deixar passar por baixo da catraca e o pessoal da Treibhaus, uma casa noturna gótica que existia na região dos Jardins, a noite lá, conforme Front lembra a seguir: “Você economizou muitas palavras nesta aventura, pois aconteceram pelo menos três fatos memoráveis neste dia, a começar pela forma como adentramos na vernissagem. 

O espaço era uma casa de cuja localização não me recordo, mas sim da cara do recepcionista ao tentar localizar nossos nomes na lista. 

Nem preciso dizer que não havíamos sido convidados. 

Uma vez no recinto, o primeiro choque: o perfume daquelas pessoas não era normal e a beleza de algumas mulheres, também não. 

Na linha do se arrependimento matasse, vi uma garota que dava até falta de ar só de ficar perto. 

Ela merecia uma foto, ali, naquele momento, mas, ao confabular com meu amigo FM, decidimos que as poucas fotos que poderíamos tirar com nossa Yashica deveriam ser reservadas ao dono da festa. 

No dia seguinte, imagine nossa surpresa ao ver estampada na capa do caderno de cultura da ‘Folha’ ninguém mais, ninguém menos do que Alexia Dechamps representando as beldades presentes na vernissagem, sim, exatamente a economia do click. 

Para fecharmos a noite, fomos agraciados pelo senso de humor ímpar de Duran, que respondeu nosso questionamento sobre ele ser muito parecido com o ator Mickey Rourke: ‘É ele que se parece comigo!’. 

Dali, fomos pisando nas nuvens para um desses inferninhos góticos de Sampa com a sensação de dever cumprido”.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

A última das coisas de que eu iria sentir falta no Natal


Então, era dezembro de... 1975, portanto, até 2000, quando, segundo eu ouvia dizer, o mundo ia acabar, eu tinha 25 anos para ter minha árvore de Natal, porque não sei quem me havia feito acreditar que pelo menos uma vez na vida todo cristão deveria lembrar o nascimento de Jesus dessa forma.

Felizmente ou não, o mundo não acabou, mas até hoje não fiz meu dever de cristão.

Primeiro, porque, quando vim a saber o que era Natal, faltavam tantas coisas na casa de minha família, como mesa, cadeiras, geladeira e televisão, que a última de que eu iria sentir falta seria uma árvore natalina.

Mesmo quando minha família melhorou de vida, conseguindo comprar um barraco na beira de um barranco e, aos poucos, todas as coisas que não tínhamos quando morávamos de aluguel, continuei deixando o mês da celebração do nascimento do filho de Deus passar sem um de seus símbolos que desde os dez anos, quando comecei a ter minhas primeiras memórias do Natal, eu achava que deveria expor, nem que fosse um pinheirinho pelado, sem nenhum enfeite.

Que nada lhe falta. 

Feliz Natal.

domingo, 20 de setembro de 2020

O mais longo dos meus dias de trabalho



Por mais que minha memória sucumba à implacável ação do tempo, ainda tenho comigo as lembranças do mais longo dos meus dias de trabalho, o domingo em que trabalhei morto de sono por ter passado a noite em um baile.

A fim de tentarmos conhecer umas meninas, eu e um ex-colega de escola fomos a uma festa em um clube no centro de Osasco, onde morávamos.

Tendo um emprego que não dava descanso nem no Dia do Senhor, eu sabia que, se perdesse uma noite de sono, iria trabalhar mal, mas, como minha vontade de curtir um pouco a vida era grande, fui.

Enquanto, de um lado, meu ex-colega, que já era escolado em matéria de conquista, sumia no meio do público, já deveria ter conhecido alguma garota, do outro, eu, que era frequentador de primeira festa, curtia as músicas que faziam sucesso na casa, como “Everybody” da recém-chegada cantora Madonna, porque, quando começava a sessão de música lenta, eu tentava encontrar um lugarzinho para cochilar, se é que alguém conseguia pegar no sono em um ambiente barulhento.

Dormindo ou não, tive de ficar no baile até o toca-discos ser desligado, as luzes serem acesas e o público se tocar, ou ser tocado, para fora, quando, para a alegria dos sem-automóvel ou sem-carona, os ônibus já deveriam estar rodando de novo. 

Naquele dia, as horas demoram tanto para passar que, para conseguir atender os clientes do balcão em que eu ganhava o pão de cada dia, precisei tomar vários copos de café e lavar o rosto várias vezes.

domingo, 13 de setembro de 2020

Os jornais que eu vendia e não lia


A notícia de que o “Jornal do Brasil”, centenário diário carioca que havia deixado de ser impresso em 2010, havia voltado, em 25 de fevereiro de 2018, me deixou tão surpreso – uma vez que o periódico havia retornado já sabendo que o jornalismo impresso estava com os dias contados, passaria a existir apenas na internet – quanto me fez lembrar de que nunca sujei tanto as mãos de tinta do que na época em que vendia jornais na rua.

Quando, entre 1976 e 1979, minha mãe e meu padrasto me disseram que não estavam gostando nem um pouco de me ver à toa na vida, só assistindo televisão (na casa dos outros), brincando (na rua) e lendo gibi, ficou bem claro para mim que já estava na hora de fazer alguma coisa para ajudá-los a pagar as despesas da casa, ou, melhor, do cômodo.

Fui vender jornais para o dono da banca que ficava na avenida Getúlio Vargas e, depois, para o da que ficava na esquina da Costa e Silva com a Médici, em Osasco, com a diferença de que, na primeira, as vendas eram feitas não só na rua, no fim de semana, mas também na banca, depois que eu voltava da escola.

Não me lembro de quantos exemplares ajeitava embaixo do braço, mas, pela quantidade de ruas pelas quais tinha de passar para não voltar com nenhum jornal e pelo peso do “Diário Popular”, de “O Estado de S. Paulo” e da “Folha de S.Paulo”, de cujo caderno infantojuvenil, “Folhinha de S. Paulo”, eu me apoderava quando não tinha dinheiro para comprá-lo para usar nas aulas de leitura e interpretação de texto, deixando algum exemplar incompleto, sei que “A Gazeta Esportiva”, o “Popular da Tarde”, irmão do “Dipo” e concorrente da “Gazeta”, e a “Folha da Tarde”, de propriedade da Folha da Manhã, mesma empresa que publicava a “Folha” e o “Notícias Populares”, matutino sensacionalista que, como se dizia, se torcesse, saía sangue, eram os que eu mais levava, dos quais só a “Folha” e o “Estadão” ainda existem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Perdidos no Espaço


Quando, em 1991, fui demitido do emprego em que eu me sentia mais infeliz por tê-lo conseguido com a ajuda de uma “persona non grata” do que pelo trabalho que eu fazia – cuidar de arquivo morto, passando o dia todo procurando e guardando documentos fiscais –, Gabriel Front, um dos amigos com os quais eu curtia música, livros, quadrinhos e outros assuntos que não estavam no gibi, me convidou para ajudá-lo a fazer manutenção em um salão de festas cujo locatário estava tentando fazer funcionar. Educados na velha escola do rock, eu meu amigo, cujo nome verdadeiro é Valderi Gabriel Lourenço, não tínhamos lugar menos convidativo para esperar a chamada de algum emprego do que em uma casa onde acabamos fazendo festas para pagodeiro. A fim de compensarmos nossos maltratados ouvidos e termos ânimo para continuar fazendo faxina, carregando caixas de cerveja, temperando e fritando frango a passarinho para a turma do pagode, pedimos ao arrendatário do estabelecimento um dia para abrir a casa para um projeto que se havia acendido em nossa mente. O nome que escrevemos na faixa que ficaria esticada na frente da casa no dia da festa foi Harry, homônimo de uma banda de rock eletrônico de que gostávamos muito, a qual, embora cantasse em inglês, era brasileira, da cidade paulista de Santos. O projeto estreou em 28 de agosto, dois dias depois de eu passar a segunda-feira toda colando cartazes e deixando convites nas lojinhas de discos das galerias do centro de São Paulo, trabalho este que encerrei visitando a redação da revista “Trip”, e um depois de eu comemorar mais um ano de vida. Parte integrante da trilha sonora de “Laranja Mecânica”, um dos filmes favoritos de nossa turma (tanto que foi depois de assistir a esta adaptação cinematográfica feita pelo diretor estadunidense Stanley Kubrick que acabei conhecendo boa parte da obra do escritor britânico Anthony Burgess), a primeira música da “set list” do Front foi a “Nona Sinfonia de Beethoven”. O Espaço Harry chamava a atenção não só porque nele tocávamos as músicas que ouvíamos e dançávamos nas casas noturnas alternativas paulistanas, mas também porque deixávamos à mesa várias publicações nacionais e estrangeiras, como “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Correio Braziliense”, “Veja”, “Melody Maker”, “New Musical Express”, “The Face”, “i-D” etc., para os frequentadores verem ou lerem enquanto curtiam as músicas do cardápio. Se, por um lado, eu, ou, melhor, Edhson FM, que era responsável pela divulgação do projeto, tentava impressionar com os cartazes e convites que criava com decalque, colando letra por letra, e os releases que redigia, por outro, Front, que cuidava da discotecagem, caprichava tanto na programação que se dava ao trabalho de listar todas as músicas, de forma que, se alguém quisesse saber que som havia rolado, por exemplo, das 17 horas, quando religiosamente o DJ apertava o “play”, até às 23, quando era pressionado o “stop”, era só olhar no cardápio. Este serviço só era possível porque Front levava gravado tudo o que havia programado para tocar, tendo apenas o trabalho de virar a fita cassete. Criado para oferecer música e informação, o Harry logo deixou de lado a segunda opção, porque, quando o público, formado principalmente por uma garotada que matava a aula de quarta-feira para curtir música gótica, electronic body music e outros sons estranhos aos ouvidos da massa, começou a afastar as cadeiras para dançar, o jeito foi o DJ aumentar o som e deixar os “harriers”, como chamávamos os frequentadores, correr para a pista. Mas a festa durou pouco tempo, porque, algumas semanas após a estreia, Front, que ficou tocando o projeto sozinho depois que fui chamado para trabalhar como temporário no escritório de uma rede de comércio atacadista, teve de entregar as chaves do estabelecimento, que ficava na avenida Santo Antônio, em Osasco. Das duas, uma: ou ele esquecia a festa ou procurava outro lugar para fazê-la. O primeiro lugar para o qual ele tentou levar o projeto foi o Blaue Engel, um café-teatro que, se eu não tivesse visto, não teria acreditado que existia em Osasco, uma vez que era uma façanha bancar uma casa de espetáculo em uma cidade tão apagada culturalmente, principalmente sendo produtor independente, mas não conseguiu convencer as pessoas à frente do cinematográfico estabelecimento com cara de anos 30 a abrir as portas para nossa festa. Na mesma rua do café-teatro homônimo do filme de Marlene Dietrich, existia um restaurante onde anos atrás havia funcionado uma lanchonete em que os “drugues”, como chamávamos nossos amigos de curtições culturais, costumavam realizar muitos “happenings”, animados encontros alimentados com cervejas, beirutes, panquecas e muita conversa fiada. Foi lá nossa segunda estreia, graças ao contato com o DJ da casa, que gostou tanto de conhecer nosso projeto que acabou se tornando parte integrante dele. Àquela altura, a discontecagem já estava não só nas mãos do Front, mas também nas de outros “harriers”, como Glauco Félix 
e Marcos Vicente, DJ este que, em 1993, criou o Projeto Autobahn, uma das mais bem-sucedidas baladas dedicadas aos anos 80. Duas festas realizadas naquele estabelecimento, do qual fomos obrigados a sair depois da denúncia de que nosso barulho estava incomodando a vizinhança, merecem ser lembradas: a do dia em que foi sorteado um frango assado, ganho pela mãe de uma das frequentadoras mais cobiçadas da festa, e a do dia em que, enfurecido por causa das velas acesas na pista durante uma sessão gótica, um dos DJs não oficiais meteu-lhes um chute! O terceiro endereço não poderia ser mais convidativo do que uma garagem na Vila Yara onde no fim de semana funcionava um bar frequentado por amantes de música sertaneja. Mas foi no palco deste lugar nada agradável aos roqueiros que um dia desligamos o toca-CDs para ver Mickey Junkies, a banda mais famosa do cenário alternativo osasquense, reunir o maior público da festa, deixando a garagem tão cheia que algumas pessoas tiveram de curtir o show do lado de fora da casa, ao fim do qual, sem muito dinheiro no bolso, pagamos umas cervejas para a banda de nosso amigo de alma beat Rodrigo Carneiro. Acho que já estávamos fora deste muquifo no sábado em que, a pedido de nosso sócio Duda, cujo verdadeiro nome fico devendo, atravessei a noite colocando umas fitas e uns discos de sertanejo para rodar, quando, mesmo em meio à fumaça das frituras, tive o prazer de reservar uma mesa para uma convidada muito especial: minha mãe. Nossa quarta parada foi perto da terceira, no Glorya Delli Club, outro lugar onde Front e eu não teríamos conseguido espaço para o Harry sem a ajuda de nosso empenhado sócio. Quando nosso projeto chegou ao Glorya, uma casa noturna onde se realizavam vários tipos de festas, já estava rolando no domingo, dia em que os amantes de sons alternativos poderiam ter todas as desculpas para não ir a nossa festa, menos dificuldade de condução, já que a mais bonita das casas onde os “harriers” já haviam aportado funcionava perto de um terminal de ônibus, facilitando a vida não só de quem morava em Osasco e região, mas também de quem se encontrava em São Paulo. A estreia do projeto foi tão boa que deixou gravada a participação de Front e Duda no “Lunch Break”, um programa da então Nova FM que a cada edição trazia DJs das mais diferentes festas para apresentar algumas músicas de sua “set list”. Por falar em rádio, não dá para esquecer o sábado em que o patrocinador do programa que Kid Vinil tinha na Brasil 2000 impediu que o apresentador divulgasse nosso projeto no ar. A convidativa casa noturna na Vila Yara deveria ter sido o último endereço do Harry se, depois de meses sem fazermos barulho em nenhum outro lugar, não tivéssemos sido informados de que havia um bar no Km 18, um bairro afastado do centro de Osasco, cujas portas poderiam ser abertas para nós. Entretanto, a falta de público nesse novo endereço fez nossa festa acabar mais cedo do que esperávamos. Até conhecermos nossa última parada, Front e eu levamos nossos DJs para discotecar no Armageddon, um clube de góticos e eletrônicos na rua Augusta, e agendamos uma discotecagem no Cais, uma danceteria na praça Roosevelt frequentada pelo mesmo público da casa noturna da Augusta. Se a festa do dia 28 de agosto de 1992,
quando o projeto completou dois anos, era para ser a última, acabou não sendo, porque, na última hora, achei melhor esquecer aquela história de projeto e ir dormir, deixando todos me esperando à porta da inesquecível casa noturna da Roosevelt. Em 2005, até tentei voltar com o projeto, desta vez em uma casa de metaleiros no centro de Osasco, mas, vendo que nosso público já não estava mais “smelling like teen spirit”, realizei apenas duas festas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Uísque? Não, obrigado

Não sei como alguém pode gostar de algo tão amargo, como uísque, cujos amantes sempre vi bebericando como se estivessem tomando água, sem fazer cara feia.

Pensando bem, sei, sim, porque eu mesmo gosto de uma coisa bem amarga, jiló, que nunca achei tão amargo quanto achei quando a vida me obrigou a fazê-lo de mistura para não comer arroz puro, além do que, gosto não se discute, não importa se amargo, azedo ou doce.

Bebi uísque duas vezes na vida, para nunca mais querer passar mal.

A primeira foi em uma festa de fim de ano da empresa onde trabalhei entre 1985 e 1991, na qual, ao ver a secretária do chefe do setor de transportes, colega pela qual eu arrastava um caminhão, com um namorado, bebi até cair no almoxarifado, devendo ter sido levado para casa por algum colega de trabalho.

Na segunda, não dei vexame (quem nunca deu vexame por causa de uma paixão não correspondida não sabe o que é isso), mas fiquei tão embriagado que, na volta para casa, desci no ponto final do ônibus, com o qual, graças a Deus, acabei pegando carona até o ponto certo.

Sócio-correspondente do Clube de Criação, que naquele tempo tinha “de São Paulo” no nome e sede na rua Treze de Maio, no Bixiga, não pensei duas vezes quando, no fim de 1989(?), fui convidado para ir ao lançamento do 16.º Anuário do Clube de Criação, em um famoso bar no Itaim Bibi.

Um estranho na festa, eu só tinha uma coisa a fazer, aproveitar os comes, que, se não me engano, ficavam em uma mesa, e os bebes, que a todo momento passavam em frente aos convidados.

Para não ficar só no refrigerante, até porque eu já havia passado dos 18 anos, aceitei quando um atendente me perguntou: “Uísque, senhor?”.

Mal tomei dois goles, já estava arrependido de ter aceitado a bebida, que, nem misturada com refrigerante, me fez querer mais nada, a não ser arranjar um jeito de me livrar daquele copo (sem ninguém notar, como se alguém estivesse olhando para mim), pegar minhas coisas e a avenida Brigadeiro Faria Lima até o Largo da Batata, antes que o último ônibus me deixasse mais perdido na noite do que eu já estava.

Desse dia em diante, nunca mais tive inveja de ver ninguém com um copo de uísque na mão.