domingo, 13 de agosto de 2017

Entrega em domicílio errado

Eu tinha razão quando, para não correr o risco de receber nenhum cumprimento indesejável, como aqueles que só recebo em dias de festas, não ia trabalhar no dia de meu aniversário, porque, no dia em que, não sei por que, não faltei ao trabalho, fui surpreendido com uma festa, realizada por meus colegas de lida. Bom para participar de festas dos outros, mas péssimo quando a festa é para mim, fiquei tão feliz com a surpresa que, sem querer ser indelicado nem mal-agradecido, acabei fazendo minha colega Telma, principal responsável pela reunião mais convidativa do departamento em que eu trabalhava e uma das pessoas mais admiráveis que conheço, chorar, não sem, depois de esconder meu lado lobo da estepe, deixar de pedir desculpas e agradecer aos convidados e aproveitar a festa. O último dia de julho de 2017 não foi o dia de meu aniversário, mas ganhei um presente tão inesperado quanto o mencionado acima que foi como se tivesse sido. Na verdade, eu esperava um presente, uma vez que, como se não bastassem tudo o que já mandou para mim ou para minha família, uma amiga com a qual eu havia falado dias antes tinha dito que iriam chegar umas coisas para meus filhos, mas não uma compra de supermercado! Não, como eu disse aos entregadores que pararam em meu domicílio, a compra não era para mim, pois nem eu nem minha mulher havíamos feito nenhum pedido. Nem poderíamos, já que o dinheiro que sobra depois do pagamento das principais contas, como água, luz, gás e telefone, mal dá para sair dos mercadinhos de que sou freguês com umas poucas sacolinhas com arroz, feijão, cebola, alho, óleo, café, açúcar, leite (nunca vi tanta caixa em meu armário), pão e margarina, produtos que nunca podem faltar em minha casa. A compra, na qual havia azeites, maminha, costela suína, filé de frango, inclusive empanado, linguiça para churrasco, produtos que meu poder aquisitivo deixa fora de minha listinha de gastos no mercado, só poderia estar em nome de outra pessoa. E estava, no nome de uma amiga que conheci nos bailes da vida, que, apesar de ter o mesmo sobrenome que eu, mora em outro endereço, para o qual acabou de se mudar. Tão agradecido quanto constrangido, telefonei para ela, que me revelou que a compra era uma doação (esta foi a palavra que ouvi) de uma amiga nossa, a qual, por causa de um, digamos, entrave diplomático, pediu “a little help from her” para me fazer uma surpresa. Mas por quê? Está certo que, desde que a quantidade de trabalho que chegava a minha mesa diminuiu, tenho enfrentado algumas dificuldades para colocar o pão na mesa de minha família, já tendo até aceitado uma cesta básica de uma amiga, oferta da qual, muito agradecido, abri mão depois de alguns meses, mas, graças a minha mulher, que, quando a discussão é quem tem mais dinheiro para pagar as contas, tem sido o homem da casa, ainda não estou contando com a ajuda dos outros para abastecer minha despensa (“O Senhor é meu pastor...”). Uma das pessoas que mais fizeram minha dívida de gratidão aumentar, principalmente depois que me tornei pai, tanto que já nem tenho mais cara para pedir nem para aceitar mais nenhuma ajuda, minha nobre amiga me disse que a ideia de me fazer uma surpresa, para cuja realização ela não esperava que fosse contar com a ajuda de ninguém, surgiu depois que escrevi sobre o dia em que levei minha família para tomar café em uma padaria de bacana. Segundo ela, se eu conseguisse economizar nas compras de mantimentos, poderia ir com minha família à padaria e comer à vontade. Com o desgosto que, em termos de trabalho, tem sido o mês em que fico mais velho, comer à vontade vai ser impossível, mas não posso deixar de atender ao pedido que minha generosa amiga me fez – levar minha família para tomar café outra vez na padaria, não necessariamente na mesma –, até porque, como eu disse a minha mulher, que queria entender como é que eu estava pensando em dar uma de bacana em um momento em que estamos passando por uma crise financeira tão grande, o que vou pendurar em meu ainda não cancelado cartão de crédito vai ser um décimo do valor do inesperado presente com que minhas amigas me fizeram chorar e agradecer de alegria.

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