domingo, 15 de novembro de 2015

Quem não tem o que fazer inventa

Quem não tem o que fazer, costumava dizer minha mãe, inventa. Na fila dos desempregados desde 1991, só trabalhando quando algum serviço temporário me chamava, na primavera de 1993, eu realmente não tinha o que fazer quando decidi lançar um fanzine, projeto que martelava em minha cabeça desde 1986, quando eu era colaborador, principalmente como distribuidor, do jornal punk Contracorrente, editado em Brusque, Santa Catarina. Foi a droga que encontrei para não só suportar o mal-estar provocado pela falta de trabalho, mas também para reviver o tempo em que eu redigia os releases do Espaço Harry, festa que eu e um amigo produzimos em Osasco entre 1991 e 1992, e alguns textículos para o jornal osasquense O Diário, em 1993, mesmo ano em que alguns de meus dias de desocupado foram interrompidos pelo trabalho que uns amigos que faziam serviços de comunicação visual para feiras, exposições etc. me ofereceram. Como as teclas da única máquina de escrever que eu 
tinha à mão estavam encavalando, a primeira edição do Creation, nome que ficou em minha mente depois que vi uma foto da banda My Bloody Valentine em um dos dois semanários ingleses que se empilhavam em minha hemeroteca (o Melody Maker e o New Musical Express), foi digitada no computador de minha amiga de longo tempo Vanessa Martins, sobrando para mim apenas o so-no-len-to trabalho de composição dos títulos com decalque (quem só nasceu depois da chegada do computador às mesas de redação não sabe a canseira que dá escrever colando letra por letra). Aliás, sem “a little help from my friends”, como a que recebi da Lorna Burleigh, não teria conseguido imprimir as cópias de divulgação da publicação, pois, mal tendo dinheiro para pegar o ônibus para atender a uma chamada de emprego, teria deixado meu projeto existir só na imaginação, ou, melhor, nos originais. Quando, depois de assistir a uma palestra que o jornalista Kid Vinil havia dado na unidade da escola de idiomas Yázigi em Osasco, um amigo me disse que eu precisava conhecer a diretora da instituição, ele nem imaginava que um diria eu iria me apresentar a ela. Um dia, antes de ir para a Ceasa, onde, bêbado de sono e sob olhares de peões mal-encarados, eu passava a noite controlando a entrada e a saída de carrinhos de carga e descarga de frutas, verduras e outros frutos da terra, aportei na redação da revista Trip, de cujo expediente fazia parte o hoje diretor de redação da versão brasileira da estilosa revista GQ, Ricardo Franca Cruz, para pegar algumas das fotos que Erika Palomino, 
jornalista que tinha uma coluna no caderno de cultura da Folha de S.Paulo dedicada ao mundo dos clubbers, havia feito para uma entrevista nas Páginas Negras da TripAs fotos da jornalista, que entrevistei para a segunda edição do fanzine, eram para ser feitas por outra de minhas amigas de muitos anos, Hebe Kátia, que frequentava 
muitos dos clubes cujos babados iam parar na Noite Ilustrada, mas, como a entrevista foi transferida para outro dia e local, o próprio jornal onde a colunista trabalhava, acabei pedindo-as emprestadas (eram só para copiar) à Trip, revista cuja redação eu costumava visitar depois que conheci seu lendário fotógrafo Shoiti Hori, hoje em outro mundo, embora eu nunca tenha falado com seu fundador e editor, Paulo Lima. Outras pessoas com cuja impagável colaboração também contei em uma ou duas das três edições do Creation foram Henry Jaepelt, um dos mais prolíficos e atuantes desenhistas do difícil submundo fanzineiro, e Roberto Miller Maia, que na Radio Session do número 2 escreveu sobre a programação da então rádio universitária roqueira Brasil 2000, da qual ele era diretor. Passados 20 anos do lançamento da 
última edição de meu fanzine, em 1995, quando o trabalho noturno em uma loja de conveniência não me deixou fazer mais nada, a não ser a cama para dormir, desconfio que a publicação foi só uma desculpa que o destino inventou para, depois de uma reportagem que a Folha publicou no fim de 1996, eu conhecer a menina que um dia se tornaria a mãe de meus filhos.

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