quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pensando na vida

Posto que no futuro não estarei aqui para contar para meus filhos o dia a dia de nossa família quando eles eram pequenos (se é que, entretidos com a tecnologia que vai existir quando eu já estiver em outro mundo, eles vão querer perder tempo com o passado, principalmente sabendo que vivíamos no limbo), escrevo tudo o que – e quando – posso em meu diário de bordo, como o registro de uma das mais recentes idas de meu filho ao banheiro, na madrugada de 20 de abril. No escuro, sentado na poltrona que me livra das dores provocadas pela cadeira de trabalho, eu só estava esperando passar mais alguns minutos para trocar a fralda de minha filha, para a qual eu havia acabado de dar uma mamadeira, quando ouvi o barulho do trinco da porta do quarto. Era meu filho, ainda sonolento, a caminho de seu penico, que fica na sala, como o dono do imóvel que alugamos chama o estreito espaço que fica depois do muro no meio do cômodo onde deveria ser só a cozinha, ou sala. Quando o vi chorando por ainda não conseguir tirar a fralda, coloquei a irmã dele de volta no berço e fui ajudá-lo, achando certa graça ao ficar descalço para aquecer os pezinhos dele. Não menos graça acho quando, no assento em que às vezes ele fica parecendo uma famosa obra de Rodin, ele diz que está pensando na vida.

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