terça-feira, 19 de abril de 2011

O canto da sereia

Ter acordado tarde no sábado 20 de abril de 1991 me custou lamentar pelo resto da vida: não ter ido ao Hilton Hotel ver o pessoal do Cocteau Twins, a cuja primeira das duas apresentações no Projeto SP eu havia assistido na noite passada. Quando vi as fotos que um fã que eu costumava encontrar aos sábados em frente à Bossa Nova, uma das lojinhas de discos que existiam em uma galeria entre as ruas Barão de Itapetininga e 7 de Abril, havia tirado antes e depois do show, uma delas com Elizabeth Fraser segurando Lucy Belle, filha da vocalista com o guitarrista Robin Guthrie, no
colo, fiquei com vontade de rasgar minha carteirinha de fã, pois fã de verdade não dorme quando sua banda favorita está por perto. Eu estava na casa onde meu amigo Glauco morava perto do centro de Osasco quando, assistindo à recém-chegada Music Television (MTV), não me mostrei muito animado com a notícia de que a banda iria tocar no Brasil, talvez porque, perdido em minhas angústias existenciais, eu não estivesse a fim de curtir nada fora do quarto onde eu dormia. Achei graça quando até as rádios que não tinham fama de roqueiras anunciaram, com Heaven or Las Vegas de fundo, faixa homônima do álbum de 1990, a vinda da “maior banda do momento”. Se, por um lado, perdi a oportunidade de fazer uma sessão de fotos com a banda de que mais gosto, por outro, já comecei a curtir a segunda apresentação desde a passagem 
de som, à tarde. Nos dias que antecederam os shows, ouvi dois especiais da banda no rádio: um na Eldorado e outro na 89 FM, nesta, em um programa que ia ao ar à meia-noite chamado Rock Report, do jornalista Fábio Massari. Formada na Escócia em 1979 pelos dois já citados integrantes e pelo baixista Will Heggie, que em 1984 foi substituído em por Simon Raymonde, a banda só não esteve mais em evidência nas rádios que sempre tocaram suas músicas porque, àquela altura, a FM 97 de Santo André, emissora em que ouvi pela primeira vez o som do escoceses, já não existia mais. Foi só ouvir Sugar Hiccup, do álbum Head over Heels, de1983, Primitive Painters, música da banda inglesa Felt com participação de Elizabeth Fraser, e Song to the Siren, do This Mortal Coil, projeto da gravadora 4AD com a vocalista do Cocteau Twins, para eu me apaixonar pela sereia, que canta como se estivesse falando uma língua de outro mundo, intraduzível, porém etérea, como uma canção de ninar. Se não me engano, a banda já havia produzido Victorialand, álbum de 1986, quando  
de 1984, foi lançado no Brasil. Voltando à porta da hoje extinta casa de show, como fiquei atrás da câmara, não sei se eu estava com a camiseta que mais havia gostado de comprar na Galeria do Rock, a qual acabei dando para Hebe, fã que se havia tornado minha amiga justamente por causa da banda, ou com a que havia ganhado da amiga, mas, igual a muitos amigos que encontrei no sábado, como as irmãs Eloisa e Elena, que tinham vindo de Curitiba, Anna, Gabriel e Glauco, aplaudiu muito quando ouvi Blue Bell Knoll, My Love Paramour, Pitch the Baby, Cico Buff, Iceblink Luck, Sugar Hiccup, I Wear Your Ring, Pink Orange Red, Ella Megalast Burls Forever, Aikea-Guinea, Love’s Easy Tears, Orange Appled, Lorelei, Crushed e Heaven or Las Vegas desplugadas do rádio, da televisão ou de outro tocador de som. Ao fim desta set list,
eu, Gabriel e umas amigas fomos para o Espaço Retrô, uma das casas noturnas alternativas paulistanas onde o som dos escoceses sempre soou muito bem – obrigado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.