segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Perdidos no Espaço

Muita gente que frequenta, ou frequentou, danceterias em São Paulo sabe que o Projeto Autobahn, que existe desde 1993, é uma das mais bem-sucedidas festas dedicadas aos anos 80. O que pouca gente sabe é que a “antiga casa dos anos 80” à qual a página da famosa balada paulistana se refere é o Espaço Harry, festa em que Marcos Vicente, mentor do projeto homônimo de um álbum da banda alemã Kraftwerk, começou sua carreira de DJ. Achando que eu não tinha futuro, estava ferrado e malpago trabalhando no escritório de uma grande rede de supermercados, em 1991, quando, graças a Alice in Chains, Babes in Toyland, Hole, Mudhoney, Nirvana, Pearl Jam, Screaming Trees, Soundgarden, Stone Temple Pilots e outras bandas,  o rock viveu sua fase conhecida como grunge, resolvi sair do emprego que eu detestava mais por ter conseguido de favor do que pelo trabalho que eu fazia – cuidar de arquivo morto, passando o dia todo procurando e guardando notas e outros documentos fiscais. Foi nessa época que Gabriel Front, um vizinho de bairro que fazia parte da turma que desde 1985 eu procurava para curtir música, livros, quadrinhos e outros assuntos que não estavam no gibi, me chamou para ajudá-lo a fazer manutenção em um salão cujo locatário estava tentando fazer funcionar. Educados na velha escola do rock, Front e eu não tínhamos lugar menos convidativo para esperar a chamada de algum emprego do que em uma casa onde acabamos fazendo festa para pagodeiro. A fim de compensarmos nossos maltratados ouvidos e termos ânimo para continuar fazendo faxina, carregando caixas de cerveja, temperando e fritando frango a passarinho para a turma do pagode, pedimos ao arrendatário do estabelecimento um dia para abrirmos a casa para um projeto que se havia acendido em nossa mente. O nome que escrevemos na faixa que ficaria esticada na frente da casa no dia da festa foi Harry, homônimo de uma banda de rock eletrônico de que gostávamos muito, a qual, embora cantasse em inglês, era brasileira, da cidade paulista de Santos. O projeto estreou em 28 de agosto, dois dias depois de eu passar a segunda-feira toda colando cartazes e deixando convites nas lojinhas de discos das galerias do centro de São Paulo, trabalho este que encerrei visitando a redação da revista Trip, e um antes de eu comemorar mais um ano de vida. Parte integrante da trilha sonora de Laranja Mecânica, um dos filmes favoritos de nossa turma (tanto que foi depois de assistir a esta adaptação cinematográfica feita pelo diretor estadunidense Stanley Kubrick que acabei conhecendo boa parte da obra do escritor britânico Anthony Burgess), a primeira música da set list do Front foi a Nona Sinfonia de Beethoven. O Espaço Harry chamava a atenção não só porque nele tocávamos as músicas que ouvíamos e dançávamos nas casas noturnas alternativas paulistanas, mas também porque deixávamos à mesa várias publicações nacionais e estrangeiras (como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Veja, Melody Maker, New Musical Express, The Face, i-D etc., parecia uma hemeroteca) para os frequentadores verem ou lerem enquanto curtiam as músicas do cardápio, o que chamávamos de fast culture. Se, por um lado, eu, que era responsável pela divulgação do projeto, tentava impressionar com os cartazes e convites que criava com decalque, colando letra por letra, e os releases que redigia, por outro, Front, que cuidava da discotecagem, caprichava tanto na programação que se dava ao trabalho de listar todas as músicas, de forma que, se alguém quisesse saber que som havia rolado das 17 horas, quando religiosamente o DJ apertava o play, até às 23, quando era pressionado o stop, era só olhar no cardápio. Este serviço só era possível porque meu amigo levava gravado tudo o que havia programado para tocar, tendo apenas o trabalho de virar a fita cassete. Criado para oferecer música e informação, o Harry logo deixou de lado a segunda opção, porque, quando o público, formado principalmente por uma garotada que matava a aula de quarta-feira para curtir grunge e outros sons estranhos aos ouvidos da massa, começou a afastar as cadeiras para dançar, o jeito foi o DJ aumentar o som e deixar os “harriers”, como chamávamos os frequentadores, correrem para a pista. Mas a festa durou pouco tempo, porque, algumas semanas após a estreia, Front, que ficou tocando o projeto sozinho depois que fui chamado para trabalhar como temporário no escritório de outra rede de supermercados, teve de entregar as chaves do estabelecimento, que ficava na avenida Santo Antônio. Das duas, uma: ou meu amigo esquecia a festa ou procurava outro lugar para fazê-la. O primeiro lugar para o qual ele tentou levar o projeto foi o Blaue Engel, um café-teatro que, se eu não tivesse visto, não teria acreditado que havia em Osasco, uma vez que era uma façanha bancar uma casa de espetáculo em uma cidade tão apagada culturalmente, principalmente sendo produtor independente. Apesar de a apresentação que fizemos no dia 8 de novembro, quando subi ao palco para participar de uma breve encenação em que nosso amigo Nilton foi “the protagonist”, ter recebido alguns aplausos, inclusive por causa do fundo musical com Dead Can Dance, não conseguimos convencer os produtores do cinematográfico estabelecimento com cara de anos 30 a abrir as portas para nossa festa. Na mesma rua do café-teatro homônimo do filme de Marlene Dietrich, existia um restaurante onde anos atrás havia funcionado uma lanchonete onde os “drugues”, como chamávamos nossos amigos de curtições culturais, costumavam realizar muitos happenings, animados encontros alimentados com cervejas, beirutes, panquecas e muita conversa fiada. Foi lá nossa segunda estreia, graças ao contato com o DJ da casa, que gostou 

tanto de conhecer nosso projeto que acabou se tornando parte integrante dele. Àquela altura, a discontecagem já estava nas mãos de João (tocando música gótica e eletrônica), Glauco (fazendo as sessões psicodélicas e de guitar bands), Beto e Gulherme (trazendo sons eletrônicos) e Marcos Vicente (revivendo o techopop e o new romantic), deixando Front bastante à vontade para exercer seu papel de mestre de cerimônias. Embora atuassem nos bastidores, outras pessoas muito importantes na história do Harry foram nossos amigos Nilton, que, além de ajudar a receber o público, agitava na pista, e Adriana, que digitava e enviava para a imprensa os releases que eu redigia. Duas festas realizadas naquela casa, da qual fomos obrigados a sair depois da denúncia de que nosso barulho estava incomodando a vizinhança, merecem ser lembradas: a do dia em que foi sorteado um frango assado, ganho pela mãe de uma das frequentadoras mais cobiçadas da festa, e a do dia em que, enfurecido por causa das velas acesas na pista durante uma sessão gótica, um dos DJs não oficiais meteu-lhes um chute! O terceiro endereço não poderia ser mais convidativo do que uma garagem na Vila Yara onde no fim de semana funcionava um bar frequentado por amantes de música sertaneja. Mas foi no palco deste lugar nada agradável aos roqueiros que um dia desligamos o toca-CDs para ver Mickey Junkies, a banda mais famosa do cenário alternativo osasquense, reunir o maior público da festa, deixando a garagem tão cheia que algumas pessoas tiveram de curtir o show do lado de fora do estabelecimento, ao fim do qual, sem muito dinheiro no bolso, pagamos umas cervejas para a banda de nosso amigo de alma beat Rodrigo Carneiro. Acho que já estávamos fora deste muquifo no sábado em que, a pedido de nosso sócio “Duda” (até hoje não sei o nome dele), atravessei a noite colocando umas fitas e uns discos de sertanejo para rodar, quando, mesmo em meio à fumaça das frituras, tive o prazer de reservar uma mesa para uma convidada muito especial: minha mãe. Nossa quarta parada foi perto da terceira, no Glorya Delli Club, outro lugar onde Front e eu não teríamos conseguido espaço para o Harry sem a ajuda de nosso empenhado sócio. Quando nosso projeto chegou ao Glorya, uma casa noturna onde se realizavam vários tipos de festas, já estava rolando no domingo, dia em que os amantes de sons alternativos poderiam ter todas as desculpas para não ir a nossa festa, menos dificuldade de condução, já que a mais bonita das casas onde os harriers já haviam aportado funcionava perto de um terminal de ônibus, facilitando a vida não só de quem morava em Osasco e região, mas também de quem se encontrava em São Paulo. A estreia do projeto foi tão boa que deixou gravada a participação de Front e Duda no Lunch Break, um programa da “rádio dance” Nova FM que a cada edição trazia DJs das mais diferentes festas para apresentar algumas músicas de sua set list. Por falar em rádio, não dá para esquecer o sábado em que, depois de me atender em sua loja de CDs, o patrocinador do programa que Kid Vinil tinha na autoproclamada “college radio” Brasil 2000 impediu que o apresentador divulgasse nosso projeto no ar, se é que “o herói do Brasil” iria nos ajudar. A convidativa casa noturna na Vila Yara deveria ter sido o último endereço do 
Harry se, depois de meses sem fazermos barulho em nenhum outro lugar, não tivéssemos sido informados de que havia um bar no Km 18, um bairro afastado do centro de Osasco, cujas portas poderiam ser abertas para nós. Entretanto, a falta de público nesse novo endereço fez nossa festa acabar mais cedo do que esperávamos. Até conhecermos nossa última parada, Front e eu levamos nossos DJs para discotecar 
no Armageddon, um clube de góticos e eletrônicos na rua Augusta, e agendamos uma discotecagem no Cais, uma danceteria na praça Roosevelt frequentada pelo mesmo público da casa noturna da Augusta. Se a festa do dia 28 de agosto de 1992, quando o projeto completou dois anos, era para ser a última, acabou não sendo, porque, na última hora, achei melhor esquecer aquela história de projeto e ir dormir, deixando todos me esperando à porta da inesquecível casa noturna da Roosevelt. Em 2005, até tentei voltar com o projeto, desta vez em uma casa de metaleiros no centro de Osasco, mas, vendo que nosso público já não estava mais “cheirando a espírito adolescente”, havia mudado de lugar ou de gosto, só perdi meu tempo – e meu dinheiro – com duas festas.


domingo, 27 de agosto de 2017

Quando começa a vida

Deve ser para não fazer ninguém querer morrer antes do tempo que ganhou para viver que Deus, ou quem quer que nos tenha trazido a este mundo, só nos deixou saber quando a vida começa. A minha começou, se eu considerar minha certidão de nascimento do lado materno, há 52 anos, um a menos do que a idade que meu pai, que só vim a conhecer 33 anos depois de minha chegada a este mundo, disse que realmente tenho, o que não alivia nada, porque, depois dos 40, quando começa a vida para quem quer fazer de conta que ela começa nesta idade, por mais que você tente disfarçar as marcas e o peso do tempo, vai notar que nada mais será como antes, a força da gravidade vai ser implacável, não vai deixar nada em cima, como os cabelos, que, se não caírem, vão perder a cor original até ficarem brancos. Mas o que dói mais depois que comecei a descer a serra, saí da casa dos tiozões para entrar, pelo resta da vida, na dos tiozinhos, não são as inevitáveis quedas, é a saudade de minha infância, quando eu podia fazer tudo, inclusive o bem, que minha inocência não me deixava ficar com nenhum peso na consciência, e de minha adolescência, quando, já não inocente de nada, eu só me preocupava comigo, com ou sem causa, rebelando-me contra tudo e contra todos, botando tudo pra f... fora, porque só quem não tem boas lembranças destas duas fases da vida não sente saudade delas. Se eu soubesse que, quando me aproximasse da velhice, fase que, para enganar algum idiota, foi criada a expressão “melhor idade”, iria sentir tanta vontade de fazer tudo o que eu tinha coragem e força para fazer quando era criança e adolescente, não teria, como maria vai com as outras, tido tanta pressa de ficar mais velho. Ainda bem que arrependimento não mata, ou eu já teria morrido por não ter feito o que deveria ter feito, embora já tenha feito coisas que me fizeram ficar mais arrependido por tê-las feito do que teria ficado se não as tivesse feito. Só em ver, por exemplo, o preço pela hora da morte que as empresas de planos de saúde cobram, a quantidade de drogas que as farmácias vendem, a chiadeira que pessoas nas filas da vida fazem, o sono que os passageiros dos ônibus sentem e a impaciência que todos temos para com os velhos, já acendo uma vela para que os muitos anos de vida que algumas pessoas ainda me desejam não sejam mais do que o tempo que ainda espero viver. Por tudo o que já vi e vivi até aqui, se minha permanência neste mundo tivesse sido determinada por mim, certamente eu iria querer ficar neste mundo só enquanto me sentisse vivo, não dependendo da ajuda de nada nem ninguém, a não ser em caso de gentileza ou respeito, não de obrigação ou privilégio. Já que a infância é a idade das interrogações e a da velhice, das negações, espero que, quando passar dos 60, se é que passarei, eu me negue a pensar que, só porque terei vivido mais tempo, serei melhor do que era quando jovem e muito mais quando criança, a não ser melhor para esconder meus medos, minhas vergonhas, meus sonhos, minhas frustrações, meus preconceitos e tantas outras coisas que só deixarei de lamentar no dia em que minha vida chegar ao fim.

sábado, 26 de agosto de 2017

Quando entrar setembro

Está muito bonita a mirra que ganhei de minha amiga Telma Franco quando completei, consoante meu registro materno, 47 anos e, o paterno, 48, que, para não deixar para segunda-feira, dia nada convidativo para quem trabalha ir a festa, nem para o próximo domingo, que já seria outro mês, excepcionalmente, comemorei, com alguns convidados, na véspera. Graças à ajuda de minha velha amiga Liliane e de sua mãe, dona Gedalva, esta cuidando da planta quando, em dezembro de 2012, me mudei de Embu das Artes, onde, um ano antes, comecei minha vida de casado, e aquela, quando sua mãe se mudou da casa em que foi minha vizinha de quintal. A amizade entre mim e Liliane se iniciou em 1983, quando, depois de ouvir o apresentador de um programa de uma rádio de Osasco de que às vezes eu participava, inclusive no estúdio, falar de mim, começou a trocar correspondência comigo. Mas acho que a árvore, cujo nome de provável origem semítica quer dizer  amargo, vai ficar muito mais bonita quando, como diz a introdução de uma música de um cantor do mesmo estado da amiga que me presenteou, entrar setembro, mês em que a estação das flores chega ao hemisfério sul. Será a primeira vez que ela estará florida desde que chegou a minhas mãos, em abril, mais de quatro anos depois de eu prometer que ela só voltaria para mim quando eu, que, desde que tive o atrevimento de levar a menina dos meus olhos para morar comigo, já havia feito e desfeito minhas trouxas em três casas de aluguel, visse minha família em uma casa realmente nossa, sonho que, graças a quase 99% de esforço de minha admirável mulher, se tornou realidade no segundo semestre de 2016, quando nos mudamos para o imóvel do qual só espero ir embora quando meu tempo neste mundo acabar. Tão bonita quanto a planta que tenho como símbolo da abençoada conquista de minha família, tanto que carinhosamente a chamo de árvore de Josué, em frente à qual de vez em quando me curvo para orar, está a muda que plantei para dar a Telma, o que deverei fazer assim que ela tiver um tempinho para vir a meu lar, doce lar tomar o cafezinho com pãozinho de queijo que eu e minha família gostaríamos de servir a ela.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Onde mulher bonita não paga

Uma dúzia de laranja, duas de banana, porque pobre não compra estas frutas por peso, meio quilo de maxixe, dois de tomate, metade de uma abóbora, uma abobrinha, um pimentão (eu disse pimentão, não pimentinha), dois chuchus, uma mão de pimenta-dedo-de-moça e um maço de coentro, porque nordestino vive sem salsinha, mas não sem coentro. Onde é que você pode comprar tudo isso por 14 reais? Para você ter uma ideia, grosso modo, foi o mesmo valor que gastei por um pedaço de melancia e menos de uma dúzia banana em um mercado de frutas onde, a caminho de um parque ao qual meus filhos costumam ir para brincar, minha mulher parou outro dia. Só na feira, onde já ouvi dizer que mulher bonita não paga, mulher que não gasta o dinheiro do marido deixa-o gastar com as outras e, recentemente, mulher que não tem 2 reais deve largar o marido. Pelo menos em duas das feiras aonde tenho ido toda semana, a de terça e a de sábado, ambas me fazendo andar pra burro, já que, deixando para ir na hora da xepa, quando alguns produtos ficam baratos pra chuchu, não tenho tempo para esperar o ônibus e, mesmo que tivesse, iria a pé, não só para economizar dinheiro, mas também para diminuir meu sedentarismo. Às vezes, principalmente quando passo em uma lojinha para comprar fraldas ou em um mercado para aproveitar alguma oferta, volto para casa de carro, esperando minha condutora em frente a um bar, uma vez que ela insiste em ir me buscar. Se a preguiça fosse o pior dos pecados capitais que cometo, até que, para suar menos, eu poderia deixar para ir à feira da sexta, que fica perto de minha casa, ou a de domingo, que fica no fim da descida de minha rua, mas não gosto de nenhuma das duas, especialmente desta última, que é muito pequena, com apenas uma dezena de barracas. Só não fui mais vezes à da quarta, a preferida de minha mulher, e a outra de sábado, perto da casa do pai dela, feira à qual já tive o prazer de ir com meus filhos comer pastel, porque ficam muito longe, obrigando-me a pegar ônibus.

domingo, 13 de agosto de 2017

Entrega em domicílio errado

Eu tinha razão quando, para não correr o risco de receber nenhum cumprimento indesejável, como aqueles que só recebo em dias de festas, não ia trabalhar no dia de meu aniversário, porque, no dia em que, não sei por que, não faltei ao trabalho, fui surpreendido com uma festa, realizada por meus colegas de lida. Bom para participar de festas dos outros, mas péssimo quando a festa é para mim, fiquei tão feliz com a surpresa que, sem querer ser indelicado nem mal-agradecido, acabei fazendo minha colega Telma, principal responsável pela reunião mais convidativa do departamento em que eu trabalhava e uma das pessoas mais admiráveis que conheço, chorar, não sem, depois de esconder meu lado lobo da estepe, deixar de pedir desculpas e agradecer aos convidados e aproveitar a festa. O último dia de julho de 2017 não foi o dia de meu aniversário, mas ganhei um presente tão inesperado quanto o mencionado acima que foi como se tivesse sido. Na verdade, eu esperava um presente, uma vez que, como se não bastassem tudo o que já mandou para mim ou para minha família, uma amiga com a qual eu havia falado dias antes tinha dito que iriam chegar umas coisas para meus filhos, mas não uma compra de supermercado! Não, como eu disse aos entregadores que pararam em meu domicílio, a compra não era para mim, pois nem eu nem minha mulher havíamos feito nenhum pedido. Nem poderíamos, já que o dinheiro que sobra depois do pagamento das principais contas, como água, luz, gás e telefone, mal dá para sair dos mercadinhos de que sou freguês com umas poucas sacolinhas com arroz, feijão, cebola, alho, óleo, café, açúcar, leite (nunca vi tanta caixa em meu armário), pão e margarina, produtos que nunca podem faltar em minha casa. A compra, na qual havia azeites, maminha, costela suína, filé de frango, inclusive empanado, linguiça para churrasco, produtos que meu poder aquisitivo deixa fora de minha listinha de gastos no mercado, só poderia estar em nome de outra pessoa. E estava, no nome de uma amiga que conheci nos bailes da vida, que, apesar de ter o mesmo sobrenome que eu, mora em outro endereço, para o qual acabou de se mudar. Tão agradecido quanto constrangido, telefonei para ela, que me revelou que a compra era uma doação (esta foi a palavra que ouvi) de uma amiga nossa, a qual, por causa de um, digamos, entrave diplomático, pediu “a little help from her” para me fazer uma surpresa. Mas por quê? Está certo que, desde que a quantidade de trabalho que chegava a minha mesa diminuiu, tenho enfrentado algumas dificuldades para colocar o pão na mesa de minha família, já tendo até aceitado uma cesta básica de uma amiga, oferta da qual, muito agradecido, abri mão depois de alguns meses, mas, graças a minha mulher, que, quando a discussão é quem tem mais dinheiro para pagar as contas, tem sido o homem da casa, ainda não estou contando com a ajuda dos outros para abastecer minha despensa (“O Senhor é meu pastor...”). Uma das pessoas que mais fizeram minha dívida de gratidão aumentar, principalmente depois que me tornei pai, tanto que já nem tenho mais cara para pedir nem para aceitar mais nenhuma ajuda, minha nobre amiga me disse que a ideia de me fazer uma surpresa, para cuja realização ela não esperava que fosse contar com a ajuda de ninguém, surgiu depois que escrevi sobre o dia em que levei minha família para tomar café em uma padaria de bacana. Segundo ela, se eu conseguisse economizar nas compras de mantimentos, poderia ir com minha família à padaria e comer à vontade. Com o desgosto que, em termos de trabalho, tem sido o mês em que fico mais velho, comer à vontade vai ser impossível, mas não posso deixar de atender ao pedido que minha generosa amiga me fez – levar minha família para tomar café outra vez na padaria, não necessariamente na mesma –, até porque, como eu disse a minha mulher, que queria entender como é que eu estava pensando em dar uma de bacana em um momento em que estamos passando por uma crise financeira tão grande, o que vou pendurar em meu ainda não cancelado cartão de crédito vai ser um décimo do valor do inesperado presente com que minhas amigas me fizeram chorar e agradecer de alegria.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A árvore de Josué


Pai de dois filhos, já posso escrever um livro, porque acabo de plantar uma árvore, na última terça-feira, quando, para não perder o galho quebrado acidentalmente da árvore de Josué, como carinhosamente chamo a planta em volta da qual, quando a preguiça e o cansaço não se apoderam de mim, falo com Deus, mais para agradecer do que para pedir alguma coisa. O lugar escolhido foi a praça perto de minha casa, onde posso levar água para ela, o que, até aqui, já fiz duas vezes, na segunda, aproveitando para plantar as recém-brotadas sementes de girassol que Amy e Mitsuo trouxeram de um dos passeios que eles fizeram nas últimas férias escolares. Pela cara de algumas folhas, cujo verde ainda se mantém vivo, vi que a planta pegou, como pegou o galho que plantei para dar a uma amiga e devem ter pegado os que dei a outras. Além disso, poderei andar entre árvores altíssimas, admirar os pés de café, que sempre tive vontade de ter no jardim de minha casa, abacate, ameixa, banana, goiaba, jaca (aliás, até eu me mudar para perto do zoológico, nunca tinha visto um pé desta fruta em São Paulo) e morango silvestre, algumas das delícias que já encontrei, enquanto meus filhos poderão se divertir nos dois únicos brinquedos que acho que o tempo e as pessoas ainda não destruíram totalmente, o balanço e o escorregador. Se eu não tivesse visto plantas pisadas e lixo jogado, rastros de que as pessoas que frequentam a praça ou passam por ela não ajudam a mantê-la mais convidativa, iria aproveitar um pedacinho da terra para fazer uma horta, plantando cebolinha, coentro, salsinha, abóbora, chuchu, quiabo etc. Mesmo assim, alguns amantes da flora, como uma senhora e um senhor com os quais conversei na primeira vez em que eu e minha família fomos à praça, continuam cuidando do lugar como se estivessem cuidando do quintal da casa deles.

domingo, 23 de julho de 2017

Dando uma de bacana

A fim de pagar a promessa que eu havia feito quando minha mulher perguntou o que eu achava de, um dia, irmos tomar café em uma padaria, aproveitei um dos 15 dias de férias dela para dar uma de bacana em uma padaria, ou, como está escrito na frente do estabelecimento, casa de pães, perto da estação do metrô Saúde, já que achei a perto da ruazinha onde, quando morava na casa dos pais, a menina dos meus olhos mais me viu sair desesperado para não perder a última condução para Osasco mais convidativa do que a da que tem as mesmas iniciais de meu alter ego, também na Saúde, que ela descobriu na volta do trabalho. Com o dinheiro dos textos que reviso e dos bicos que tenho feito mal dando para pagar as contas, eu não poderia me dar ao luxo de estar em um lugar onde minha situação financeira não me deixa sentir em casa, mas, como eu não devia nada a ninguém, a não ser os favores que os outros me fazem, muitos dos quais impagáveis, não me privei do prazer de levar minha família para, pelo menos, tomar um café fora de cara, especialmente minha mulher, que na correria do dia a dia vai trabalhar sem tomar café. À vontade para pegar o que quisesse, depois de servir às crianças, Priscilla pegou um café expresso, duas ou três fatias de frios e a mesma quantidade de minipães, inclusive de queijo, enquanto, para acompanhar os mesmos pãezinhos e frios, pedi um café com leite e um pão francês com manteiga, ou margarina, na chapa. Como gosto de café queimando a boca, pedi a uma atendente que, por favor, esquentasse o que eu havia pegado. Com nossa casa para comer melancia, Mitsuo, cujo suco de laranja acabou ficando para Amy, que deve ter gostado muito do bolo de chocolate, preferiu a padaria, comendo só um dos dois pedaços que peguei. Sentindo-me Gary Cooper em O Galante Mr. Deeds ou Paul Hogan em Crocodilo Dundee, só fiquei sabendo que não precisava erguer a mão para ser atendido, era só apertar um botão sobre o porta-guardanapos, quando uma atendente trouxe a água que pedi para Mitsuo, da mesma forma que minha mulher só ficou sabendo que não precisava deixar nossa diligência na rua de trás à saída do estabelecimento. A última vez em que eu havia me servido de um café da manhã tão gostoso fora de casa foi no começo do ano, quando, sempre gastando até o último centavo para tentar agradar nossa família, Priscilla aproveitou as férias para passar metade de uma semana em uma pousada em Serra Negra.

domingo, 16 de julho de 2017

Para dormir até acordar

Desde o dia 10, quando entraram em férias da escola, até o dia 26, quando voltam à realidade, meus filhos vão poder dormir até acordar, o que não significa que eles vão querer ficar na cama até, como eu gostaria, tarde, depois das 8, porque cedo mesmo é na hora que coloco os pés no chão, por volta das 3. Como tudo na vida tem dois lados, o ruim é que, ficando o dia todo em casa, eles vão ter mais tempo para me deixar trabalhar menos e mais angustiado, seja fazendo barulho, uma grande dor de cabeça para quem precisa de silêncio, seja me chamando para brincar, já que ainda não têm idade para saber que, apesar de meu corpo estar em casa, minha cabeça está no trabalho, quase sempre correndo contra o tempo para não atrasar a entrega do que me chega à mesa.
O bom é que todo dia eles não vão me ver pegando no pé deles na hora de ir dormir e acordar, vão ter a semana toda para brincar, de preferência, fora da casa deles, que é mais divertido, e dar um descanso ao avô deles, que leva e traz Amy, aproveitando para pegar Mitsuo, que vai para a escola com a mãe deles. Um dia depois de entrar em férias, Priscilla, que até o fim desta semana também vai poder dormir até acordar, já os levou para o primeiro passeio nestas férias, a Fazendinha Estação Natureza, que fica a poucos minutos do Aeroporto de Congonhas, perto de onde moramos. Passando a tarde toda na fazenda, as crianças viram cavalos, vacas, cabritos, ovelhas, jabuti, patos, galinhas, galinhas-d’angola, que minha mulher, que não é da roça, achou que fosse peru, andaram de charrete e dirigiram um carro um helicóptero de madeira.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Quem foi que chamou a polícia

Minha filha é, como ela mesma diz, uma princesa, mas, quando acorda de mau humor ou é contrariada, é outra pessoa, perde toda a beleza, afasta todos de perto dela. Não sei quem a ensinou ou o que a tem feito chorar como chorava nos primeiros meses de vida. Às vezes, o acesso de choro dela, que hoje completa dois anos e sete meses, é tão preocupante que até fico com medo de algum vizinho chamar a polícia para ver se ela está sendo maltratada, como aconteceu na última casa da qual nos mudamos, no primeiro dia de outubro de 2016. Como não era dezembro, o décimo primeiro dia de abril iria passar igual a todos os 11 dos outros meses da vida de Amy: esquecido. A fim de me levar ao estande de vendas da construtora do imóvel que havia dias ela estava sonhando em comprar, cuja construção já estava bem adiantada, Priscilla pediu aos pais dela que ficassem com nossos filhos até voltarmos. Embora a visita, a segunda de muitas que ainda iríamos fazer pelos próximos dias, tenha sido mais demorada do que esperávamos, ficamos sossegados, pois achávamos que o máximo de trabalho que as crianças iriam dar aos avós delas seria, no caso de Amy, querer colo, mamadeira e troca de fralda e, no de Mitsuo, que brincassem com ele. Mas, diferentemente do que imaginávamos, eles, ou, melhor, ela deu tanto trabalho que foi preciso chamar a polícia, que, atendendo a uma denúncia por maus-tratos, foi averiguar o que estava acontecendo com as crianças. Imagine o susto que os avós de meus filhos levaram ao serem surpreendidos pelos policiais, os quais viram que todos estavam bem, inclusive a tia, que havia chegado depois, tudo não havia passado de um mal-entendido, provocado pela choradeira incontida de Amy, que deve ter sentido falta do colo dos pais. Rindo para não chorar desse lamentável episódio protagonizado por nossa família, Priscilla e eu só tínhamos duas pessoas suspeitas de terem chamado a polícia: a vizinha do outro lado da rua, que, por morar em frente, mesmo sem querer, acabava vendo tudo o que se passava no cortiço onde vivíamos, e a moradora da casa ao lado, de cujo funk pornográfico e de cuja sujeira, que, como dava para ver, era um prato cheio para ratos, baratas e moscas, só nos livramos quando ela entregou as chaves do imóvel, deixando a entrada para quem se incomodasse com sujeira e vermes limpar. Em toda a minha vida, poucas vezes vi uma mulher tão porca, que, para não dizer que não tinha quem a ajudasse a cuidar da casa e dos filhos, um dos quais certa vez passou a noite toda chorando não sei pela ausência da mãe ou pelos maus-tratos que sofria dos irmãos dele, tinha uma moçoila de no mínimo 15 anos, como nunca tive uma vizinha que tivesse batido tanto à minha porta pedindo emprestada a chave para abrir o portão do quintal que ela, os filhos e o namorado dela, mais do que os outros moradores, não conseguiam manter fechado. Não era à toa que, toda vez que eu ouvia o berreiro que minha princesa, que ainda não tinha idade para ouvir as broncas que hoje ouve de mim, fazia na hora do banho, aconselhava a mãe dela a levá-la mais cedo para a banheira.

domingo, 25 de junho de 2017

A trabalhosa hora de acordar

Se a mãe de Mitsuo voltasse mais cedo do trabalho, nós iríamos dormir, como se dizia na roça, com as galinhas, porque só assim para ele não dar tanto trabalho na hora de acordar para ir para a escola. Chamo de um lado, ele vira para o outro, chamo do outro, ele volta à posição em que estava deitado, puxo a coberta, ele se encolhe, chacoalho-o dos pés à cabeça, ele resmunga, chuta, mas levantar, que é bom, nada, nem abre os olhos, como se eu precisasse vê-los abertos para saber que ele está me ouvindo. Nem adianta Priscilla, que já acorda com o tempo contado para trocar de roupa, preparar a marmita, tomar café, não necessariamente café, para ir para o trabalho, tentar tirá-lo da cama, porque a tarefa não é nada fácil. O jeito é trocar a roupa dele com ele deitado mesmo, às vezes, pedindo ajuda e ouvindo-o dizer que não gosta mais de mim. A vontade de ficar na cama é tanta que ele tomba sobre o sofá e até sobre a mesa do café, que ele ainda não toma. Não sei quantas vezes ainda vou ter de repetir a ele que pare de enrolar na hora de ir dormir. Mal me sento para assistir ao Jornal Nacional ou, com muita sorte, ao Jornal da Cultura, já ouço a mãe dele dizendo que está na hora de ele ir para a cama, o que, com muita resistência, ele faz depois de vestir a fralda, orar, pedir uma massagem e água, que, não sei por que, ele só pede depois que apago a luz. Só para contrariarem, no fim de semana e no feriado, quando poderiam dormir até tarde, meus filhos acordam cedo, como aconteceu na data do fechamento deste texto, quando, por volta das 6, Amy já estava chamando, e não era o papai, para tirá-la do berço.

domingo, 18 de junho de 2017

Festa de criança sem criança

Pela cara que Mitsuo fez na foto, vejo que, infelizmente, ele não gostou da festa que ganhou no dia em que completou 5 anos de vida, porque uma coisa é certa: festa de criança sem criança não tem graça. Nem o caminhão de Coca-Cola que a tia e o avô paterno dele deram, nem o bolo de cenoura com cobertura de chocolate que a mãe dele fez, nem o Transformer que comprei no lugar do pacote de folhas de papel sulfite, da pasta para guardar desenhos e da caixa de lápis de cor que eu havia prometido, nem o bom humor do Tiago, que convidei para me ajudar a esvaziar umas latinhas de cerveja, nem, por último, o surpreendente e lindo bolo feito pela madrinha de consideração, Marisa, que, por causa de um erro de comunicação de minha mulher, chegou quando já havíamos cantado “Parabéns pra Você”, conseguiram fazê-lo ficar com cara de felicidade. Não foi por falta de convite que a única criança que o aniversariante viu na festa foi a irmã dele, pois, pelo menos, dois amigos dele foram convidados, já que, ultimamente cortando gastos e economizando até o que não podemos para conseguir pagar as contas, Priscilla e eu não pudemos chamar mais pessoas, como os novos colegas de escolas dele, se ele já tivesse se familiarizado com eles. A meu ver, o desânimo de meu primogênito só não foi maior porque as outras convidadas minhas, estas sem criança, não puderam vir à festa. Agradecendo a Deus pela alegria de poder celebrar mais um ano de vida de meu amado filho, espero que nos próximos três aniversários, quantos, segundo Priscilla, ele tem para ainda querer ter festa de criança, o número de convidados quase da mesma idade que ele seja não apenas maior do que o de quando ele completou 5 anos, mas o deixe melhor na foto.

terça-feira, 13 de junho de 2017

O buquê da noiva

Sair dizendo aos outros que no Dia dos Namorados você deu flores à pessoa que você ama não tem graça, mas dizer como o presente chegou a suas mãos são outros quinhentos. Contando os dias para cancelar meu cartão de crédito, que, desde o ano passado, quando comecei a usá-lo, só tenho comprado o necessário, como o leite em pó e as fraldas de meus filhos, e com menos de 10 reais no banco, eu iria deixar o tão esperado dia passar como outro (não gosto da palavra “qualquer”), mas, como a vida é mesmo uma caixinha de surpresa, fui surpreendido quando cheguei à casa de um vizinho que me havia chamado para buscar um pedaço de bolo e uns docinhos da festa que ele e a esposa realizaram no último sábado, na qual minha família e eu tivemos o prazer de estar. Antes de pegar as malas e entrar no carro para fazer uma viagem de lua de mel na Bahia, muito gentil e como se quisesse que as flores que enfeitaram a mesa da festa do casamento dela fossem admiradas um pouco mais antes de murcharem, minha mais nova vizinha deu o arranjo para eu levar para a menina dos meus olhos, presente que eu gostaria que ela recebesse como se tivesse pegado o buquê da noiva, fazendo-me acreditar que, se a moça com a qual moro há seis dos vinte anos que a conheço não se cansar da difícil vida que leva comigo, ainda vai se casar comigo. Conseguido do jeito como foi, o presente que dei à mãe dos meus filhos pode até não tê-la agradado tanto quanto me agradou o pão com cobertura de chocolate e recheio de doce de leite que ganhei dela, mas a gentileza com a qual todos os dias tento compensá-la por tudo o que, sem dinheiro, não lhe posso dar não tem preço.

domingo, 11 de junho de 2017

A casa de quem só nos faz o bem

Embora a escola onde meu filho passa o dia fique perto de onde a mãe dele trabalha, por ele ser dispensado uma hora antes dela, é o avô dele que vai buscá-lo. Mas, na última sexta-feira, este trabalho ficou para ela, porque uma invasão na casa do pai dela, não se sabe praticada por quantos criminosos, o impediu de nos ajudar, como, para não ser um avô só para visitas de fins de semana, tem feito desde o ano passado. A casa, como era de esperar, ficou uma bagunça, com coisas espalhadas de um andar ao outro. Segundo minha mulher, que uma semana antes havia pegado o computador dela para aproveitar a chamada de um técnico, foram levados dois notebooks, um tablet, dois televisores, um deles, se não me engano, recém-comprado, uma máquina fotográfica e uns 40 kg de moedas, algumas delas juntadas no tempo em que os pais dela, os quais durante mais de quatro décadas trabalharam com fotografia, foram donos de uma loja no Paraíso. Ainda bem que não havia ninguém em casa (minha cunhada havia ido para o trabalho e meu sogro, a uma consulta médica), ou o estrago poderia ter sido pior, porque dificilmente o dono da casa iria deixar as coisas que ele conseguiu com tanto sacrifício serem levadas sem ele não tentar fazer nada contra os ladrões. Na verdade, até que havia, o Tico, que, pela cara de vira-lata e pelos latidos, se é que latiu, não fez nada para impedir o invasor, ou invasores, de abrir o portão, arrombar a porta da sala e furtar a casa de seus donos. Só em ver as fotos que, na volta do trabalho, minha mulher tirou quando passou na casa para se solidarizar com o pai e a irmã, já me senti atingido pelo lamentável acontecimento, porque a casa de quem só nos faz o bem também é nossa. Enquanto escrevo este texto, minha mulher está ajudando minha cunhada a continuar a faxina que elas não conseguiram acabar no sábado.

sábado, 20 de maio de 2017

Episódios inesquecíveis de quando trabalhei em Alphaville

Trabalhei duas vezes em Alphaville, o lado rico de Barueri, ou onde pobre só se sente bem-vindo como empregado ou prestador de serviços: em 1985, quando o depósito de uma grande rede de supermercados onde comecei carimbando notas fiscais, abrindo e fechando cancelas e pesando caminhões se mudou de Osasco, e em 1997, quando a segunda empresa onde fui revisor de texto se mudou de São Paulo. Foi nesta, da qual só saí quando o departamento de tradução e legendagem foi fechado, que assisti a alguns dos episódios mais inesquecíveis, não necessariamente nesta sequência. O primeiro foi o dia em que, como se estivesse em um filme de ação, o “Alemão”, um dos motoristas que paravam de ponto em ponto pegando passageiros que andavam cansados da demora e do desconforto dos ônibus precisou pisar fundo no acelerador de seu furgão, fazer várias ultrapassagens forçadas e cortar caminho, passando por cima até de guias, para se livrar da perseguição implacável dos homens da segurança do local, o que ele só conseguiu depois de chegar, pela rodovia Castelo Branco, a Osasco, onde os guardas da cidade vizinha não poderiam fazer nada contra ele. Eu estava em um dos pontos da mesma avenida onde havia começado a fuga cinematográfica mencionada acima quando, perto de um lugar onde o asfalto estava fofo, tomei um banho de lama do ônibus que eu iria pegar para voltar do trabalho noturno. Por falar em trabalhar à noite, nunca o cansaço e o sono me atrapalharam tanto como no dia em que a pressa para entregar o filme O Sonho não Acabou me fez passar 24 horas acordado, só tendo tempo para ir para casa, jantar e voltar para o trabalho. A segunda-feira em que, conforme havia sido combinado no sábado, todos foram trabalhar de preto, inclusive, coincidentemente, a encarregada do setor, era para ser apenas mais um dia de bom humor do pessoal de nosso departamento, mas os colegas que, a meu ver, não tinham tempo nem lugar certos para fazer alguma reivindicação, como o descanso no sábado, decidiram transformar a brincadeira em um protesto, que, infelizmente, acabou provocando a demissão do “Selvagem da Motocicleta”, como eu gostava de chamar o marcador de legendas que ia trabalhar com as roupas e os cabelos desarrumados que não deve ter escapado das críticas da encarregada, da mesma forma que a marcadora que ficou estourando um plástico até a última bolha não escapou da bronca do “colaborador” que a encarregada havia chamado para substituí-la nas férias. Ironicamente, foi o auxiliar da “chefa” que o destino, cruel e traiçoeiro, acabou escolhendo para ocupar definitivamente a cadeira dela. Outros episódios memoráveis são de um sábado em que, por causa de óleo na pista, vários carros deslizaram, fazendo um dos Tiagos da marcação, o com “h”, rir à beça, e de outro em que, do outro lado da rodovia, um homem ameaçava pular do topo de uma torre de transmissão de energia elétrica. Mas nenhum foi mais do que o do dia 19 de maio, quando, para surpreendermos nossa colega Jaqueline, que, durante pelo menos duas semanas, ficou nos lembrando do aniversário dela, todos, inclusive a tradutora Telma, que era quem mais estava por trás de todas as festas do setor, fingimos que não sabíamos que ela estava ficando um ano mais velha, deixando para comemorar no dia seguinte. Quando vimos a sempre sorridente marcadora encerrar o dia de trabalho aos prantos, só queríamos que o dia 20 chegasse logo para pedir desculpas a ela e, com festa, claro, desejar-lhe muitas felicidades e muitos anos de vida.

domingo, 23 de abril de 2017

De volta ao Brás

O número errado de um calçado que minha mulher havia comprado para nossa filha me fez voltar três i-na-cre-di-tá-veis vezes ao Brás, famoso bairro da capital paulista em cuja estação do metrô homônima eu não desembarcava desde que minha amiga Hebe entregou a chave do imóvel onde morou antes de se despedir do Brasil pela, se não me engano, segunda vez, em 1996. Na primeira ida, quando eu deveria ter pedido a troca do 23 pelo 24, acabei trazendo o mesmo 23, porque a dona da banca não havia visto, nem eu, que o número que estava na caixa era 22; na segunda, quando a compradora já havia previsto que o 24 iria ficar perdido logo, pedi exatamente o número seguinte ao que estava na embalagem; e, na terceira, a única em que, para não diminuir minha fome na hora do almoço, não gastei dinheiro em um dos quiosques que vendiam pãozinho de queijo na estação, por conta própria, porque não havia conseguido falar por telefone com minha mulher, até que enfim, peguei o número certo, não no mesmo modelo, que, como já era de esperar, havia acabado. Quando soube que eu iria ao centro de compras popular que ele frequenta, o neto mais velho de minha mãe tentou me convencer a passar em uma banca vendendo tênis a 40 reais, como se, hoje pegando emprestadas as moedas de meus filhos para pagar a condução, eu pudesse me dar ao luxo de ter tamanha quantia em minha conta bancária. Além do mais, o tênis que ele me deu em uma de minhas últimas visitas à casa dele ainda nem foi estreado, já que, só para ir de casa ao mercado ou ao hospital, o surrado tênis de quando eu ainda era solteiro e o já aberto sapato que, com muita insistência, minha mulher conseguiu me dar em meu último aniversário me bastam.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O lado bom de ter um nome horrível

A fim de tentar melhorar a revisão da transcrição de Mamãe Precisa Casar (My Mothers Future Husband) que eu havia recebido, fiz o que deveriam fazer todos os colegas que revisam transcrição, (re)li o texto ouvindo o áudio, ou, melhor, assistindo ao vídeo, porque, acostumado a ver transcrições com trechos incompletos, principalmente quando o áudio não está bom ou o assunto da fala não é dominado por quem faz a transcrição, ou diferentes da fala (não é à toa que Oswald de Andrade disse que a gente escreve o que ouve, nunca o que houve), não confio nem no que eu mesmo escrevo. Em uma das cenas, na aula de redação, a personagem Headly, uma adolescente que precisa arranjar um marido para sua mãe, que não se desgruda dela, não dá um tempo para ela viver a descoberta da paixão, diz o seguinte sobre sua segunda “má sorte” (a primeira foi a morte do pai): “O lado bom, provavelmente o único lado bom de ter um nome horrível, que nem o meu, é que você sente solidariedade por outras pessoas que também têm nomes horríveis, como...” Naasson, o primeiro nome com o qual fui registrado. Mas não fui o único dos filhos de meu pai a receber um nome que dá o que falar, suscita comentários maldosos ou gargalhadas. Até conseguir mudar seu nome, Victor sofreu muita gozação, principalmente na escola, por se chamar Atanagildo, diferentemente de Tânia, que teve a sorte de, não sei como, se livrar de seu indesejável Cornustíbia, e de Afif, que parece que nunca se sentiu incomodada por causa de seu nome árabe e, no Brasil, de homem. Acho que nem se os irmãos tivessem vergonha de se olhar no espelho mereceriam ganhar um nome constrangedor. A escolha do nome de um filho não é tarefa fácil, porque o que agrada à mãe nem sempre soa bem aos ouvidos do pai. Um nome pode até parecer bonito tanto para um quanto para o outro, mas quem é que gostaria de ter um filho com o mesmo nome de, por exemplo, um desafeto? Há filhos que são tão infelizes com o nome que ganharam dos pais que, quando não sofrem ao revelá-lo, têm de se dar ao trabalho de dizer como ele é escrito, se com letras dobradas, com “h”, “k”, “w” ou “y”, castigo a que estarão sujeitos até o fim da vida.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O nome de meu filho

Recentemente, a escola para a qual meu filho foi neste ano, que fica perto de onde a mãe dele trabalha, deu como lição de casa aos pais a tarefa de contar a história do nome do filho, dever que minha mulher deixou para mim, já que fui eu que dei o nome a ele. Contei que ele tem o nome que ele tem porque, em 1975, quando a mãe dele nasceu, eu voltava correndo da escola para assistir, na casa de algum vizinho ou amigo meu, a um desenho cujo protagonista se chamava Mitsuo. Toda vez que tenho vontade de ser duas pessoas para fazer o que não posso sendo só uma, como revisar os textos com os quais ganho dinheiro ao mesmo tempo em que faço faxina em minha casa, lembro-me do Mitsuo da televisão, que tinha um boneco, chamado robô-cópia, que ficava igual a quem lhe apertasse o nariz. Só assim para ele se transformar no Superdínamo (acho que só eu escrevo desta forma) e ajudar, com outros Dínamos, um deles um macaco, quem estava em apuros, deixando a família pensando que ele estava no quarto fazendo a lição de casa. Em um dos mais de, se não me engano, 20 episódios que estão no CD que minha amiga Silmara gravou para mim quando eu tinha tempo para frequentar festas, Mitsuo, cansado de sono e de tanto trabalhar para os outros e não ganhar nada, desiste de ser Superdínamo, entregando o capacete, que o deixava com uma força invejável, o emblema, através do qual podia se comunicar, e a capa, com a qual podia voar, ao Super-Homem, não o Clark Kent, mas o chefe dos Dínamos. Se você quer saber se Mitsuo conseguiu dormir sossegado, assista a este episódio.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Não estou podendo


A ficha caiu, virou peça de museu, mas o orelhão continua de pé, nem que seja só para as pessoas colarem anúncios de programas sexuais, picharem ou, o que é pior, quebrarem. Apesar da vergonhosa situação em que se encontra o telefone cuja cabine já dá para ver de longe por que ele tem o nome que tem, é mais fácil achar um cartão em minha carteira do que crédito em meu telefone móvel, porque não estou podendo. Não mesmo, pois já chega o gasto que tenho com o telefone fixo e com o serviço de conexão com a internet, sem contar o que minha mulher paga todo mês para não ser mais uma proprietária de um celular que só recebe ligações nem precisar procurar um telefone público, que, quando não se encontra quebrado, às vezes só ficando o fio pendurado, está mudo. É muito dinheiro para quem cada vez mais tem tido pouca coisa importante para dizer e muito menos para ouvir. Como, depois que comecei a trabalhar em casa, só tenho carregado o celular para meus filhos tirarem e verem fotos e bagunçarem a configuração, razão pela qual, para deixar minha mulher furiosa, a maioria das chamadas não é atendida, não posso reclamar que ninguém liga para mim, nem mesmo a pessoa que mais parece que tem estado a fim de falar comigo: minha mulher.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Sushi com farofa

Não fui à última festa de minha vida como solteiro, a que minha amiga Silmara realizou em 26 de março de 2011. É que no dia seguinte, novamente, eu estaria de mudança, desta vez para Embu das Artes, cidade perto de onde o trabalho de minha namorada, com a qual eu iria morar em uma casa alugada, havia mandado, ela deixando a casa dos pais e eu, Osasco, onde estava desde que havia chegado da Bahia, em 1974. Quando, no domingo em que passei na casa da família dela para dizer o que ela já havia anunciado, vi a cara de tristeza ou decepção da mãe, do pai e da irmã dela, senti-me como um bandido raptando a mocinha, coloquei a mala e o único móvel que fiz questão que ela levasse, uma poltrona vermelha, no carro que eu havia chamado para carregar a mudança e fui embora o mais rápido possível, até porque ainda precisava ir ao mercado fazer a primeira compra da casa. Acostumado a não sei quantos encontros e despedidas entre mim e ela, que conheci em 1997, depois de uma reportagem de jornal da qual participei, e conhecendo a vida sossegada em que ela vivia com a família, sem se preocupar com casa, comida e roupa lavada, pensei que, depois de ver que a vida comigo não seria nada fácil, ela iria voltar correndo para a casa dos pais. Nem pensar, ou, se ela pensou, desistiu da ideia, porque morou em uma casa onde até de madrugada pedia que eu a salvasse das baratas, encarou o tanque até comprarmos uma máquina de lavar roupas, aprendeu a fechar a panela de pressão, acostumou-se a comer coentro, quiabo, jiló e maxixe, não me deixando nenhuma dúvida de que estava comigo para o que desse e viesse, menos comer tomate com casca, passar roupas e dormir pouco. Vieram a gravidez do primeiro filho, o que aconteceu após seis meses, a mudança para São Paulo, onde ela voltou a ficar perto da família, e um caminhão de preocupações, a maior delas a da conta do aluguel, que nos obrigou a trocar a vida aparentemente de bacana em um apartamento perto das rodovias Anchieta e Imigrantes por uma vida nada tranquila em um cortiço em uma rua sem saída próxima às mencionadas rodovias. Quando achávamos que morando em uma casa cujo valor do aluguel era metade do quanto pagávamos iríamos conseguir juntar dinheiro para comprar um imóvel, a notícia de que nossa família iria aumentar nos chegou de surpresa logo que aportamos no novo endereço, de cujo incômodo do som alto e das brigas dos vizinhos e das baratas só nos livramos depois de 30 meses, quando o contrato do aluguel venceu. O surpreendente anúncio da chegada de nosso segundo filho não nos teria deixado tão desesperados se nossa forçada mudança de endereço já não tivesse sido indício de que nossa situação financeira não estava boa, a qual piorou quando, por causa da perda do principal cliente da empresa para a qual presto serviços, comecei a trabalhar menos e, como se não bastasse, a receber o pagamento em prestações, duas vezes no mês, o que, para quem ainda tem um trabalhinho pingado nesta crise econômica sem precedentes pela qual mais de 10 milhões de brasileiros estão passando, era melhor do que não receber nada. Se a esta altura eu já estivesse me sentindo bem na foto, ainda não estivesse cortando gastos, fazendo todo tipo de trabalho que consigo para ajudá-la a diminuir o peso nas costas, até dezembro, iria perguntar-lhe se ela quer se casar comigo, porque acho que, depois de comer mais de um quilo de sal, passar seis anos de união instável comigo, afinal, nenhum relacionamento pode ser chamado de estável quando enfrenta tempestades, a menina dos meus olhos já me conheceu o bastante para dizer se ainda sirvo para ser marido dela.

domingo, 15 de novembro de 2015

Quem não tem o que fazer inventa

Quem não tem o que fazer, costumava dizer minha mãe, inventa. Na fila dos desempregados desde 1991, só trabalhando quando algum serviço temporário me chamava, na primavera de 1993, eu realmente não tinha o que fazer quando decidi lançar um fanzine, projeto que martelava em minha cabeça desde 1986, quando eu era colaborador, principalmente como distribuidor, do jornal punk Contracorrente, editado em Brusque, Santa Catarina. Foi a droga que encontrei para não só suportar o mal-estar provocado pela falta de trabalho, mas também para reviver o tempo em que eu redigia os releases do Espaço Harry, festa que eu e um amigo produzimos em Osasco entre 1991 e 1992, e alguns textículos para o jornal osasquense O Diário, em 1993, mesmo ano em que alguns de meus dias de desocupado foram interrompidos pelo trabalho que uns amigos que faziam serviços de comunicação visual para feiras, exposições etc. me ofereceram. Como as teclas da única máquina de escrever que eu 
tinha à mão estavam encavalando, a primeira edição do Creation, nome que ficou em minha mente depois que vi uma foto da banda My Bloody Valentine em um dos dois semanários ingleses que se empilhavam em minha hemeroteca (o Melody Maker e o New Musical Express), foi digitada no computador de minha amiga de longo tempo Vanessa Martins, sobrando para mim apenas o so-no-len-to trabalho de composição dos títulos com decalque (quem só nasceu depois da chegada do computador às mesas de redação não sabe a canseira que dá escrever colando letra por letra). Aliás, sem “a little help from my friends”, como a que recebi da Lorna Burleigh, não teria conseguido imprimir as cópias de divulgação da publicação, pois, mal tendo dinheiro para pegar o ônibus para atender a uma chamada de emprego, teria deixado meu projeto existir só na imaginação, ou, melhor, nos originais. Quando, depois de assistir a uma palestra que o jornalista Kid Vinil havia dado na unidade da escola de idiomas Yázigi em Osasco, um amigo me disse que eu precisava conhecer a diretora da instituição, ele nem imaginava que um diria eu iria me apresentar a ela. Um dia, antes de ir para a Ceasa, onde, bêbado de sono e sob olhares de peões mal-encarados, eu passava a noite controlando a entrada e a saída de carrinhos de carga e descarga de frutas, verduras e outros frutos da terra, aportei na redação da revista Trip, de cujo expediente fazia parte o hoje diretor de redação da versão brasileira da estilosa revista GQ, Ricardo Franca Cruz, para pegar algumas das fotos que Erika Palomino, 
jornalista que tinha uma coluna no caderno de cultura da Folha de S.Paulo dedicada ao mundo dos clubbers, havia feito para uma entrevista nas Páginas Negras da TripAs fotos da jornalista, que entrevistei para a segunda edição do fanzine, eram para ser feitas por outra de minhas amigas de muitos anos, Hebe Kátia, que frequentava 
muitos dos clubes cujos babados iam parar na Noite Ilustrada, mas, como a entrevista foi transferida para outro dia e local, o próprio jornal onde a colunista trabalhava, acabei pedindo-as emprestadas (eram só para copiar) à Trip, revista cuja redação eu costumava visitar depois que conheci seu lendário fotógrafo Shoiti Hori, hoje em outro mundo, embora eu nunca tenha falado com seu fundador e editor, Paulo Lima. Outras pessoas com cuja impagável colaboração também contei em uma ou duas das três edições do Creation foram Henry Jaepelt, um dos mais prolíficos e atuantes desenhistas do difícil submundo fanzineiro, e Roberto Miller Maia, que na Radio Session do número 2 escreveu sobre a programação da então rádio universitária roqueira Brasil 2000, da qual ele era diretor. Passados 20 anos do lançamento da 
última edição de meu fanzine, em 1995, quando o trabalho noturno em uma loja de conveniência não me deixou fazer mais nada, a não ser a cama para dormir, desconfio que a publicação foi só uma desculpa que o destino inventou para, depois de uma reportagem que a Folha publicou no fim de 1996, eu conhecer a menina que um dia se tornaria a mãe de meus filhos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Mãozinha

 A um mês do primeiro aniversário de Amy, espero que ela não faça feio no dia em que cantarmos “Parabéns pra Você”, bata muitas palminhas e sorria para as câmaras, ou não vai ficar bem na foto. Embora ela, que não aguenta ver um interruptor de tomada, que já corre para apertar, ainda não tenha começado a andar, já está me dando uma mãozinha – uma só, não, duas – na hora de mamar, segurando a própria mamadeira, dando-me trabalho apenas para limpar a boquinha dela, principalmente quando ela fica brincando, deixando claro que está de barriguinha cheia. Agora, não preciso mais ficar esperando-a mamar para dar conta dos trabalhos de casa, como arrumar as camas, passar pano no chão (depois de varrido por mim mesmo, claro), deixar a pia da cozinha em pratos limpos, fazer comida, estender e passar roupas, e da empresa para a qual presto serviços, pois, se depender dela, daqui até ela começar a andar com as próprias pernas, eu só vou usar uniforme de cuidador de criança quando ela quiser comer papinha, trocar fralda, desarrumar tudo o que encontrar pelo caminho (mantenha meus livros e revistas longe dela), brincar e – chega por hoje! – dormir. Clap! Clap! Clap!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Amy tem a força


Uma das vantagens de quem nasce em dezembro é não precisar fazer conta para saber quantos meses tem, bastando só ver o número do mês em que está. Este é o caso de Amy, que está completando, por exemplo, dez meses exatamente no décimo mês do ano, a esta altura já sabendo para que servem os dentes, só não deixando nenhuma marca no braço de quem a contraria porque ainda não tem muita força. Em compensação, força na peruca (ela já nasceu com os cabelos quase cobrindo os olhos) é o que não lhe falta, como não lhe falta força para tirar os livros e revistas da pequena estante de rodinhas sobre a qual fica minha máquina de escrever, ouvir minhas broncas (com um quarto da idade do Mitsuo, ela já recebeu mais reclamações minhas do que ele em toda a sua vida), agitar os braços e as pernas quando está alegre (outro dia, deu um chute tão violento que fez a colherzinha com a qual eu estava lhe dando papinha ir parar longe) e chorar quando está com fome, quer colinho e andar de cavalinho, brincadeira que faz o irmão dela abrir o berreiro de ciúme, Pena que, na hora em que preciso fazê-la dormir, principalmente quando o trabalho me chama, a força de vontade dela demora a chegar, quando não desaparece.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Nove meses depois

Engana-se quem pensa que são só as duas surpreendentes idades que tenho que me fazem sentir mais velho. Meus filhos também, tanto que, toda vez que saio com um dos dois, dificilmente volto para casa sem ter ouvido alguém me perguntar se ele é meu neto, ou ela é minha neta (não duvido se um dia acharem que sou o criado da família). Já estou tão acostumado que nem estranho mais a pergunta dos curiosos, que se repetiu ontem mesmo, quando eu estava em uma fila de banco com Amy, que hoje completa nove meses, o mesmo número de meses que ela ficou na barriga da mãe dela. Com esta idade, o irmão dela já estava indo para a creche, dando-me trabalho só na hora de ir levá-lo e buscá-lo. Já Amy, que, para não correr o risco de ficar tão doente quanto Mitsuo ficou, só vai ser levada para a creche no ano que vem, não está com a vida muito difícil. Difícil mesmo está a vida do avô, quer dizer, do pai dela, que ultimamente tem dormido mal pra burro para tentar dar conta de três trabalhos: o doméstico, arrumando as camas, lavando tudo o que chega à pia da cozinha, fazendo comida, faxina e estendendo, pegando e passando roupas; o de cuidador de criança, preparando, dando e lavando mamadeira, trocando fralda, levando o bebê para tomar banho de sol, raspando e amassando frutas, colocando água da mamadeira para ferver, cozinhando verduras e legumes da papinha, pegando a criança no colo (quem disse que choro é só sinal de fome?) e brincando (ufa, não é brinquedo, não!); e o de revisor de textos, afinal, ao contrário do que os vizinhos devem pensar quando passo o dia de pijama, não sou vagabundo, não; apesar de sair de casa só para ir ao mercado e ao banco, também estou a serviço de uma empresa. A esta altura, a menina dos meus olhos já começou a engatinhar, dando não só um grande passo na vida dela, mas também muita preocupação para mim e minha mulher, que temos de estar atentos o tempo todo para ela não derrubar nada, muito menos se ferir e a sofrer com os primeiros sinais de que os dentinhos estão para nascer, mas nem por isso ela tem deixado de sorrir e dado tchauzinho.

sábado, 5 de setembro de 2015

Acho que vi um gatinho

Não sei por que, ao dirigir-me ao estacionamento do prédio onde morávamos, eu disse a minha mulher que havia sonhado com o China, o fiel amigo do Penry, o humilde cão que, quando não estava fazendo faxina na delegacia onde trabalhavam o sargento Flint e a encantadora telefonista de saia curta Rosemari, estava ajudando Hong Kong Fu a combater os mais diferentes tipos de bandidos. Esqueça Garfield, Frajola, Tom e outros gatos famosos da televisão, porque só um bichano chamava mais minha atenção do que Batatinha, companheiro do Mandachuva que a motorista de nossa família confundiu com Catatau, amigo do urso Zé Colmeia, quando a televisão me fazia não sair da casa dos vizinhos: o China, que estava sempre tirando o atrapalhado super-herói de diversos apertos, a começar da hora em que o faxineiro entrava no armário de arquivos para mudar de identidade, encontrando dificuldade para sair das gavetas, que só abriam depois de umas pancadas (adivinhe de quem). O amigo do gato listrado (parecia uma abelha) era tão confuso que precisava consultar seu inseparável livro de golpes (de kung fu, claro), sem imaginar que quem realmente iria derrotar os vilões era seu calado, mas esperto ajudante.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

50 anos (de novo)!

Como estava escrito, neste 27, estou completando 50 anos de novo. Dois aniversários porque, por um acidente de percurso, sou duas pessoas: Naasson, nascido em 1964, e Edson, em 1965. É que, sem saber que meu pai, do qual havia se separado antes de me dar à luz, tinha me registrado e só se lembrando da última sílaba do nome que ele havia escolhido para mim, em 1975, quando eu já estava passando da hora de ir para a escola, minha mãe acabou me registrando com outro nome, deixando-me um ano mais novo. Quando, dias antes de minha idade ser arredondada pela quinta vez, convidei um velho amigo para tomar uma cerveja comigo, ele não só declinou do convite, como me disse que, se os próximos anos fossem tão decepcionantes quanto os que ele havia deixado para trás, ele não queria nem estar vivo. Sem tempo para tentar adivinhar o futuro que uma pessoa pode esperar depois de viver meio século, resolvi fazer uma festinha para poucos. Poucos mesmo, porque, apesar de a casa de nossa amiga Marisa, a quem sou muito agradecido pela boa vontade com que ajudou minha mulher a realizar a festa para mim, ser mais convidativa do que a casa onde eu e minha família nos esprememos, eu não poderia ter na lista mais do que uma dúzia de convidados. Correndo o risco de ser xingado por quem não havia sido chamado para esta festa pobre, tive o prazer de receber meu primeiro amigo de escola, Pedro, acompanhado de sua esposa, Adriana, e seus dois filhos, Miguel e Isabella; meu companheiro de viagens musicais Gabriel Front, minha ex-colega de trabalho Elisa e seu filho, Lucas; minha ex-chefa Sueli e seu marido, Sérgio; a DJ das baladas que mais frequentei, Silmara; e nossa recém-chegada amiga Rose, que foi com seu filho caçula, Yudi.  Era para eu ter mais presentes, mas, infelizmente, alguns não puderam ir. Por falar em presente, um dos que mais gostei foi o porta-retratos que ganhei de minha cunhada, Cyntia, no qual se encontra não só a bela foto creditada à filha de meu amigo Pedro, mas também o nome de quase todos com os quais lembrei meus primeiros 50 anos de vida.














domingo, 23 de agosto de 2015

Não tem preço

A felicidade, já dizia a versão brasileira para o título do filme do genial diretor estadunidense (na verdade, italiano) Frank Capra It's a Wonderful Life, não se compra, mas a pizza para ver a cara de felicidade de meu filho, sim, tanto que continuo jogando na loteria (pelo menos uma vez por semana, como espera minha mulher) só para um dia não precisar demorar tanto para atender ao pedido de minha família. Ao ver o primeiro dos 10 cupons que minha esposa tem de recortar para ganharmos outra pizza (tudo bem que é meia-boca, mas, a cavalo dado...), pensei: “Meu amor, se antes da crise já era difícil ganhar uma, imagine agora”. Era para eu ter liberado a verba na quinta-feira, quando minha mulher, que já nem se lembrava mais quando havia sido a última vez em que tínhamos comprado uma pizza, me perguntou o que eu achava de comermos uma, mas acabei deixando para o dia seguinte, já que, pensando bem, ela achou melhor pedir mais próximo do fim de semana. Nem bem me disse “Bom dia, pai”, cumprimento que ele ainda não aprendeu que só se diz até metade do dia, meu filho já foi me perguntando onde estava a pizza, deliciosa invenção italiana que em casa só perde para o macarrão porque é cara, embora a que ainda temos pedido custe menos do que a de uma pizzaria para a qual telefonei quando morávamos no endereço anterior (“Mas, minha senhora, eu só quero uma!”) e muito menos do que a de uma famosa rede de comidas rápidas aonde, pelo menos uma vez na vida, levei minha família. Tal qual o pai, Mitsuo gosta tanto de pizza que, segundo a mãe dele, nem havia acabado um pedaço da última que pedimos, ele já estava dizendo que o outro também era dele. Dá gosto de vê-lo comer com tanta vontade. É em uma hora dessas que vejo que fazer a felicidade de quem amo não tem preço.